Como um executivo brilhante e ambicioso pode destruir um ambiente organizacional

Gostaria de explorar com mais profundidade um dos temas que abordei em meu vídeo sobre O Poderoso Chefão e o mundo dos negócios no Brasil.

Como um executivo brilhantemente competente e ambicioso, mas eticamente duvidoso, pode destruir por completo o ambiente organizacional — especialmente quando a organização é liderada por um único gestor cuja personalidade permeia toda a estrutura.

O Don da máfia sabe que o subordinado ambicioso e competente representa uma ameaça potencial à sua posição. Por isso, ele está sempre atento à conduta desse subordinado.

Nas empresas, porém — especialmente nas brasileiras — não é assim.

Uma organização pode ter sido fundada por indivíduos éticos e estruturada para ser gerida de forma transparente e íntegra. No entanto, um único executivo sênior, altamente competente porém antiético, pode destruir toda a organização, especificamente:
• Criando uma cultura tóxica: fomentar um ambiente de medo, desconfiança e competição interna nociva.
• Manipulando e minando a liderança: estabelecendo um clima negativo para toda a empresa. Isso enfraquece a autoridade e a credibilidade da gestão, pois os colaboradores percebem a desconexão entre os valores declarados e as práticas reais, assim difucultando que outros reconheçam ou denunciem suas ações prejudiciais.

No Brasil, o princípio de que “manda quem pode e obedece quem tem juízo” está tão profundamente enraizado no DNA psicológico nacional que empregados submetidos a abusos e humilhações por superiores — se percebem que o agressor desfruta da confiança e da proteção do gestor — instintivamente se conformam à regra ancestral: baixam a cabeça e suportam o abuso ou simplesmente pedem demissão.

Quanto mais brilhante for o executivo e maior sua capacidade de manipulação, mais tóxico será o seu poder de contaminar a cultura organizacional.

Mais grave ainda: quando há membros da família em posições-chave, o executivo antiético pode colocar um familiar contra o outro, provocando rupturas e ressentimentos profundos dentro do próprio núcleo de controle.

O problema pode se tornar ainda mais agudo quando o gestor e o executivo tóxico são de sexos diferentes. Quando o gestor é mulher e o executivo é homem, este pode exercer influência adicional através de uma sedução velada, explorando vulnerabilidades emocionais e criando um encanto irracional e dissimulada. Quando o gestor é homem e a executiva brilhante porém tóxico é mulher, ela pode usar elogios, bajulação e apelos à vaidade como instrumentos de influência e controle.

Dessa forma, um executivo supercompetente porém antiético pode contaminar uma organização como um câncer, espalhando-se por metástase — não apenas corroendo a cultura interna, mas também destruindo relacionamentos entre colegas colegas de décadas um contra o outro, destruindo relações de confiança e moral, e até entre familiares.

Nenhum conjunto de princípios de compliance é capaz de corrigir uma situação como essa. Assim como no caso de um tumor maligno, é necessária uma remoção cirúrgica. O executivo tóxico deve ser desligado, e os colaboradores honestos, éticos e leais devem ser valorizados, protegidos e incentivados.

O crescimento talvez não seja tão rápido, e os lucros talvez não sejam tão expressivos — mas a organização permanecerá saudável, sustentável e, acima de tudo, um lugar digno e agradável para se passar a maior parte das horas conscientes da vida.