Em resumo: Os EUA classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Para Barry Wolfe, a pergunta que importa para empresas e bancos não é o que isso significa para o PCC — é o que revela sobre o Brasil. O PCC já opera, direta ou indiretamente, em setores como sistema financeiro, agronegócio, logística, energia e infraestrutura. E a defesa não está no código de ética da gaveta: está na cultura real da organização.
Porque o PCC não é um problema "lá fora". Grande parte do debate sobre a decisão americana ficou em cooperação policial, sanções, tráfico e diplomacia. Barry Wolfe propõe outra leitura:
"A decisão diz menos sobre o PCC e o CV do que sobre o Brasil."
E ele vai além:
"É um erro enxergar o PCC como uma força externa. Não é. O PCC é uma instituição brasileira."
Se é uma instituição brasileira, ela circula pelos mesmos ambientes que o seu negócio.
Para quem não conhece: O PCC (Primeiro Comando da Capital) nasceu no sistema prisional de São Paulo; o CV (Comando Vermelho), no Rio de Janeiro. São as duas maiores facções criminosas do país, e os EUA os designaram como organizações terroristas. Comunicado da Embaixada dos EUA
Segundo o artigo, o PCC está presente, direta ou indiretamente, em atividades ligadas a:
Se sua empresa atua em algum desses setores — ou compra de quem atua —, o tema já é seu. Nas palavras de Barry: "Concorde-se ou não com a designação norte-americana, trata-se de uma realidade incontornável."
Pela confiança. Com mais de 40 anos em investigações corporativas, gestão de crises, combate à corrupção e casos de crime organizado, Barry resume assim:
"Organizações criminosas raramente entram pela força. Entram através de relações de confiança, por relacionamentos, fornecedores, parceiros, prestadores de serviços, intermediários e conexões aparentemente legítimas. Quando são descobertas, muitas vezes já fazem parte do sistema."
O ponto é esse: o PCC não precisa criar redes. "Seu ativo estratégico não é a violência, mas a capacidade de explorar relações de confiança já existentes."
No Brasil, parte da vida empresarial e política funciona, como descreve o artigo, por meio de "relações de comprometimento mútuo, favores, dependências recíprocas e vulnerabilidades compartilhadas — o chamado rabo preso". Barry compara isso à omertà da máfia: um sistema em que a queda de um ameaça todos os demais.
Omertà e rabo preso: Omertà é o código de silêncio da máfia italiana. "Rabo preso" é a expressão brasileira para quem está comprometido demais para denunciar ou romper.
O paradoxo, segundo Barry, é que essa lógica mafiosa aparece com mais força "em certos círculos políticos, financeiros e empresariais do que na própria estrutura do PCC".
Não. "O desafio deixou de ser apenas compliance", escreve Barry. Toda organização acumula o que ele chama de entropia ética: regras flexibilizadas, procedimentos contornados, relações pessoais pesando mais do que princípios, pequenas exceções virando prática aceita.
"O crime organizado não cria essa entropia. Apenas acelera processos de degradação já em curso."
Um teste simples, nas palavras dele:
"Não adianta ter um sofisticado código de ética se o executivo eficiente, porém antiético, é promovido, enquanto o profissional íntegro é marginalizado."
É onde o risco mora. Segundo o artigo, toda organização tem duas:
Toda organização possui duas estruturas que coexistem. A estrutura formal é aquela representada no organograma, com cargos, hierarquias e responsabilidades definidas. Ela mostra como a empresa deveria funcionar. Já a estrutura informal é formada pelas relações de confiança, lealdades, favores e redes de influência que surgem entre as pessoas. É ela que revela como a organização realmente funciona na prática.
Auditorias e controles olham para a primeira. A infiltração acontece na segunda.
Pela cultura real — não pelo papel. Para Barry, a proteção depende "da cultura real da organização, e não apenas de controles, auditorias", além de uma "capacidade permanente de gestão de crises enraizada nas estruturas formais e informais".
Mais dois alertas do artigo:
E, no Brasil, "os riscos mais graves nem sempre são aqueles que já foram identificados".
"A designação do PCC como organização terrorista não cria uma outra realidade. Apenas ilumina uma realidade que já existia. Talvez o reflexo seja mais perturbador do que o próprio PCC."
Leia o artigo completo no Estadão →
O PCC atua em empresas legais? Sim. Segundo Barry Wolfe, o PCC está presente, direta ou indiretamente, em atividades ligadas ao sistema financeiro, agronegócio, logística, construção civil, mineração, energia, comércio, transportes, apostas e infraestrutura.
Como o crime organizado se infiltra em empresas? Raramente pela força. Entra por relações de confiança: fornecedores, parceiros, prestadores de serviços, intermediários e conexões aparentemente legítimas.
Por que compliance não é suficiente contra a infiltração? Porque controles cobrem a estrutura formal da empresa, enquanto a infiltração explora a informal — lealdades, favores e redes de influência. A proteção depende da cultura real da organização.
O que é entropia ética? É o desgaste gradual dos padrões de uma organização: regras flexibilizadas, procedimentos contornados e pequenas exceções que viram prática. O crime organizado não a cria, mas a acelera.
Onde Barry Wolfe publicou esse artigo? Em O Estado de S. Paulo, seção Espaço Aberto, em 20 de setembro de 2026, com o título "O PCC não é uma anomalia. É um sintoma".
Barry Wolfe é fundador da Wolfe Associates, advogado internacional e criminologista. Bacharel em Direito e Criminologia pela Universidade de Edimburgo, Graduate Fellow na Yale Law School e mestre em Direito Internacional Público pela Universidade de Cambridge.
Leia e assista também: PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas: O Que Isso Muda no Brasil
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