PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas: O Que Isso Muda no Brasil

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo Trump é, antes de tudo, uma decisão política. Mas ela vai ter efeitos reais para bancos e empresas fazendo negócio no Brasil. Nesta análise, Barry Wolfe explica por que o PCC é diferente das máfias tradicionais, o que muda para o compliance bancário e como um empresário pode viver com dignidade no Brasil sem tocar no que ele chama de "pantanal".

A decisão é política, não técnica

A classificação como organização terrorista não é uma análise técnica sobre a natureza do PCC ou do Comando Vermelho. É uma decisão política do governo Trump, que pode ser interpretada como uma versão contemporânea da Doutrina Monroe.

O que é a Doutrina Monroe? É a ideia, criada nos Estados Unidos no século XIX, de que a América do Sul faz parte da esfera de influência americana. O governo Trump está aplicando essa ideia hoje — querendo mais influência sobre a região.

Meu foco não é discutir se o PCC merece ou não a designação. Meu foco é o que essa decisão específica sobre o Brasil significa na prática. Porque o Brasil é diferente dos outros países. E o PCC é um fenômeno muito especial, ligado ao próprio relacionamento entre crime organizado e a sociedade brasileira.

A designação abre a porta para os EUA agirem no Brasil?

Hipoteticamente, sim — como aconteceu com a Venezuela. Mas na prática o cenário brasileiro é diferente. Provavelmente não vai haver operação militar americana dentro do Brasil.

O que pode mudar é outra coisa: hoje, o FBI e a Polícia Federal têm uma cooperação bastante cordial. Com a designação, essa cooperação pode ser intensificada — e, mais importante, pode envolver também a CIA.

Qual a diferença entre o FBI e a CIA?

Muita gente confunde. É uma diferença fundamental:

  • O FBI é uma organização policial federal americana, equivalente à nossa Polícia Federal. Ele coopera com polícias de outros países dentro de regras formais.

  • A CIA é a agência de inteligência americana. São espiões. Não seguem as mesmas regras. Fazem coisas secretas, mais invasivas — quem viu filmes de espião já sabe como funciona.

A designação como terrorista abre a possibilidade da CIA achar que tem mais direitos para atuar aqui. Não é certeza que vão. É que pode. E essa possibilidade sozinha muda o cenário.

Tem uma frase que ouvi de um colega meu, ex-CIA, que resume tudo: "Você sabe a diferença entre um policial e um espião? O policial sempre dá um jeito de mostrar que está armado. O espião nunca mostra a arma."

Impacto imediato em bancos e empresas brasileiras

Não é imediato no sentido de amanhã. Mas empresas e bancos vão ter que colocar muito mais cuidado no que se chama de compliance — os controles internos para se proteger de ações vindas dos Estados Unidos.

Que ações? Coisas como:

  • Congelamento de ativos no exterior
  • Vistos americanos revogados para executivos
  • Acusações de terrorismo por associação

O que é compliance, em uma frase? É o conjunto de regras, controles e verificações que uma empresa faz para garantir que ela não vai se envolver, mesmo sem querer, com dinheiro ou pessoas ilegais.

Por que isso afeta transferências entre outros países?

Aqui está o detalhe que muita gente não sabe: muitas transferências internacionais em dólar passam pelos Estados Unidos, mesmo quando ninguém está mandando dinheiro para lá.

Exemplo: você manda dinheiro do Brasil para a França. Esse dinheiro não vai direto. Ele passa por um banco correspondente nos Estados Unidos.

O que é banco correspondente? É um banco americano que serve como intermediário para operações internacionais de outros bancos. Quase todo dólar que se movimenta no mundo passa em algum ponto por um desses bancos.

Isso quer dizer que uma transferência de Brasil para França pode ser bloqueada por um banco americano que desconfia de alguma ponta da operação. Os bancos vão ficar bastante atentos. Mudou o jogo.

Investidores estrangeiros vão olhar o Brasil de outro jeito

Quando uma empresa internacional investe no Brasil, ela sempre faz due diligence — verificação de quem é a empresa, quem são os sócios, se as pessoas são confiáveis.

O que é due diligence? É a investigação prévia que se faz antes de investir em uma empresa. Quem são os donos, como foi o histórico, se tem processo, se tem passado suspeito.

Agora, além disso, o investidor vai ter que olhar todo o leque de relacionamentos — parceiros, fornecedores, clientes — para ver se há alguma conexão com crime organizado. E, especificamente no Brasil, com o PCC ou o Comando Vermelho.

O PCC é diferente das máfias tradicionais

Sempre me fascinou o crime organizado. Li O Poderoso Chefão aos 15 anos, apresentei trabalhos sobre a estrutura da máfia italiana quando meus colegas de escola apresentavam sobre futebol e carros. Estudei criminologia na faculdade. Trabalhei décadas com esse tema.

Uma observação que faço há muito tempo: você reconhece uma máfia pelo modo como ela aparece na sociedade.

  • Em Nova York, o capo da máfia italiana aparece no restaurante chique com duas mulheres bem vestidas.
  • Na Rússia, o oligarca — que é basicamente um mafioso russo — aparece na boate da elite.
  • No México, o chefe do cartel aparece na política do estado.
  • Na Colômbia, o chefe do cartel tem fazendas, palácios, coisas assim.

No Brasil, você nunca vai ver o chefe do PCC no Copacabana Palace. Eles ficam quietinhos. É outra história.

O PCC e o Comando Vermelho são, na essência, grupos de gangsters com poder militar e territorial. Não são máfias no sentido clássico.

Por que o PCC não precisa do "protection racket"

As máfias tradicionais operam o que se chama em inglês de protection racket.

O que é protection racket? É um tipo específico de extorsão. A máfia procura o comerciante e diz: "Se você quer operar o seu negócio aqui, você tem que me pagar. Pagar para eu te proteger… de mim."

No Brasil, o PCC não precisa fazer isso. Por quê?

Porque a estrutura de proteção paralela já existe dentro dos grandes esquemas de corrupção brasileira. É o que meu antigo chefe na Control Risks, um brilhante ex-agente da CIA, me explicou logo que cheguei aqui:

"No Brasil, se você não é um gênio, para crescer muito e muito rápido, você tem que ter rabo preso. Você tem que fazer parte de uma rede de pessoas comprometidas. Porque uma vez que você está com o rabo preso — se um cai, todo mundo cai."

Essa é a essência da coisa. O empresário brasileiro que quer crescer rápido vive olhando quem sabe o quê sobre ele.

"Rabo preso" é a versão brasileira da omertà

A máfia americano-siciliana clássica tem um conceito chamado omertà. Para ser aceito na máfia, o iniciado tinha que matar alguém. Por que matar? Para os outros saberem — assim ele ficava com o rabo preso com todos.

O "rabo preso" brasileiro tem a mesma função estrutural. Só que aqui ele opera dentro do mundo empresarial normal, não dentro de uma organização criminosa formal. Está na cultura.

Por isso o PCC não precisa criar sua própria rede de extorsão sofisticada. A rede de rabo preso já existe — nos grandes negócios, na política, nas estruturas de poder. O PCC entra nesse ecossistema como uma peça a mais.

O paradoxo brasileiro

Aqui está o mais interessante — e o mais paradoxal.

O PCC começou como um movimento social, em resposta ao massacre do Carandiru. Nasceu como grupo de revolta, não como negócio criminoso puro.

E, no entanto, quem tem mais características da máfia arquetípica no Brasil não é o PCC. São os grandes negócios brasileiros, com suas redes de corrupção institucionalizada.

É um paradoxo muito interessante. No Brasil, você não consegue separar o crime organizado do tipo PCC dos grandes negócios corruptos. Tudo é parte da mesma coisa. Um é reflexo do outro. Os dois estão institucionalizados. Não dá para tirar um sem tirar o outro. Faz parte do Brasil.

Como viver com dignidade no Brasil: a floresta e o pantanal

Se você é empresário ou banqueiro e quer ter uma vida digna no Brasil, tem que criar um mundo onde você não toca nessas coisas.

Eu comparo com andar numa floresta linda. A floresta é maravilhosa — vale a pena caminhar. Mas tem um pantanal escondido no meio. Se você pisa no pantanal, ele te puxa pra dentro. Você fica preso, não sai mais.

Então o que você faz? Você faz um mapa. Você planeja por onde vai andar. Você não chega nem perto do pantanal. Porque no momento que chega, já está perdido.

O Brasil tem corrupção institucionalizada. Mas o povo brasileiro é maravilhoso. Foi um povo explorado, mas é um povo bom. Por isso eu vim para o Brasil. Por isso eu fico.

É totalmente possível criar um mundo digno dentro de uma empresa, dentro de uma família. Você só não pode tocar nessas coisas.

Entropia: por que a coisa não se resolve sozinha

Existe um conceito na física chamado entropia.

O que é entropia? Em termos simples: coisas organizadas tendem naturalmente a virar bagunça, e não o contrário. Um copo cai e quebra. Você não vê pedaços de vidro no chão se juntando espontaneamente e virando um copo de novo.

Existe entropia moral. Existe entropia social. Uma sociedade que se degrada não volta ao estado anterior sozinha. Se você quer que o copo volte a ser inteiro, tem que juntar todos os pedaços, um por um, e reconstruir.

Mas eu sou otimista. Acho que tem jeito. Pensa num copo sujo com água suja dentro. Se você começa a pingar gotas de água limpa, no começo não faz diferença nenhuma. Mas eventualmente, se você para a entrada de água suja e continua pingando água limpa, a água do copo começa a ficar mais limpa.

Precisa de input externo — alguém que venha com outra perspectiva. É lento, mas é possível.

Crime organizado versus terrorismo: a distinção que importa

Em direito internacional, a diferença é clara:

  • Organização terrorista quer derrubar governo. Tem objetivos políticos.
  • Organização criminosa quer ganhar dinheiro. Tem objetivos econômicos.

Um pode ajudar o outro — há casos de grupos terroristas envolvidos em tráfico, e há casos de organizações criminosas com conexões políticas. Mas na essência são coisas diferentes.

A FARC, na Colômbia, começou com fins políticos e virou também criminosa — era, sim, uma organização terrorista. Não é o caso do PCC nem do Comando Vermelho. O objetivo deles é ganhar dinheiro.

Por isso a designação americana é primariamente política.

O que Foucault ensina sobre o Brasil

Michel Foucault, o filósofo francês, disse uma coisa importante: a maneira como um país pune seus criminosos revela as estruturas de poder daquela sociedade.

No caso do Brasil, o que revela as estruturas de poder é o inverso: é a maneira como o Brasil, muitas vezes, NÃO pune. Quem escapa da punição, quem tem foro, quem nunca chega ao julgamento — esse mapa das impunidades é o mapa real do poder.

A criatividade brasileira — inclusive no crime

O brasileiro é criativo. Na música. Na arte. Também no crime.

Você nunca vai conseguir mapear todos os riscos no Brasil porque nunca vai conseguir adivinhar o que o brasileiro vai inventar. Ninguém poderia ter imaginado a audácia do caso Daniel Vorcaro — foi impensável.

E por que ele foi tão audacioso? Porque ele acredita na impunidade. Acredita que todo mundo está comprometido, que todo mundo tem rabo preso, e portanto ninguém vai realmente puni-lo.

Mas não precisa viver assim

Dá para ter uma empresa digna. Dá para ter uma família digna. E tudo começa na família.

Os filhos sabem quem são os pais. Os funcionários sabem quem é o dono da empresa. O presidente pode falar em ética o dia inteiro — mas se não age assim, todo mundo sabe.

Toda empresa tem seu lado formal e seu lado informal. A postura ética verdadeira é detectável. As empresas têm que ser dignas por dentro. E aí você monta um mundo digno dentro do Brasil.

Assim, pouco a pouco, as coisas melhoram.

Perguntas frequentes

A designação pode levar a operações militares americanas no Brasil?

Hipoteticamente sim, como aconteceu na Venezuela. Mas na prática, o mais provável é intensificação da cooperação policial e possível entrada da CIA no cenário — não invasão militar aberta.

Bancos vão ficar mais rígidos com o Brasil?

Sim, bastante. Porque muitas transações internacionais passam por bancos correspondentes americanos, e esses bancos vão ter que redobrar o compliance sobre qualquer operação que toque o Brasil.

O que muda para investidores estrangeiros que querem entrar no Brasil?

A due diligence vai ficar muito mais ampla. Não vai bastar analisar a empresa-alvo — vão precisar olhar toda a rede de relacionamentos (parceiros, fornecedores, clientes) buscando conexões com PCC ou Comando Vermelho.

Qual a diferença entre o PCC e uma máfia tradicional?

Máfias tradicionais operam extorsão organizada (protection racket) e aparecem publicamente na sociedade da elite. O PCC não faz isso — não precisa, porque a estrutura de rabo preso já existe no ambiente empresarial e político brasileiro.

Como um empresário pode operar com dignidade no Brasil?

Fazendo um mapa da "floresta" — sabendo onde estão os "pantanais" da corrupção institucional — e planejando sua vida empresarial para não chegar perto deles. E começando essa postura em casa, na família.

Crime organizado e terrorismo são a mesma coisa?

Não. Terrorismo tem objetivos políticos. Crime organizado tem objetivos econômicos. Um pode se aproveitar do outro, mas as motivações centrais são diferentes.

Mensagem final

O Brasil tem corrupção institucionalizada. Isso é fato. Mas o Brasil também tem um povo maravilhoso, e é possível viver com dignidade aqui — se você souber onde é o pantanal e tiver disciplina para não chegar perto dele.

Tudo começa na família. Tudo se estende à empresa. Pouco a pouco, as coisas melhoram.

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